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Caracas sofre com lixo, violência, barricadas em ruas e falta de produtos

caracas-venezuela.jpeg02-300x202 Caracas sofre com lixo, violência, barricadas em ruas e falta de produtos

“Estou apagando nosso grupo de conversas, ok?” A mensagem chegou quando a reportagem da Folha estava no aeroporto de Maiquetía, preparando-se para voltar da cobertura da Assembleia Constituinte. Quem enviava era a pessoa que ajudou a reportagem a se locomover, de moto e capacete, por Caracas, junto ao fotógrafo que fez as imagens, durante a semana que antecedeu a eleição para a Assembleia Constituinte, no último dia 30.

Para agilizar o nosso trabalho naqueles dias, tínhamos criado um grupo de conversas num aplicativo, para que pudéssemos nos atualizar sobre a localização de cada um, revisar o que íamos fazer e para avisar sobre eventuais imprevistos, bloqueios ou mudanças de rota.

“Vou apagar tudo o que falamos e peço que você apague também, já estão fazendo batidas para inspecionar celulares”, disse a pessoa, uma produtora de audiovisual acostumada a dar apoio a jornalistas estrangeiros que visitam Caracas nos últimos tempos.

Sua preocupação não é gratuita. Desde terça-feira (1º), a Guarda Nacional Bolivariana começou a executar ordens do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional), parando gente na rua para revisar seus celulares.

O órgão também vem tentando rastrear de onde saem os vídeos caseiros que são feitos por manifestantes e transeuntes que filmam cenas de repressão para colocar nas redes sociais.

“Eu filmo, sim, jogo no meu grupo de amigos, mas depois apago do aparelho. Tem um aqui que posso te mostrar”, disse à Folha Diana (nome fictício), 30, habitante do bairro de classe média de Bello Monte, hoje em dia o local escolhido pelo grupo jovem e antichavista La Resistencia para fazer manifestações e confrontar a GNB.

Na tela do celular de Diana, via-se um grupo de oficiais pulando as grades de sua casa e vasculhando o jardim. Isso, conta ela, tem acontecido quase todos os dias desde que os protestos desse grupo se mudaram da praça Altamira para cá, há três meses.

Christian Veron – 30.jul.2017/Reuters
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Após manifestação, pessoas cruzam barricada em Caracas

“Neste dia eu tive medo, porque eles subiram no telhado e entraram na sala. Eu então me tranquei com minha avó no quarto. A guarda estava buscando um dos manifestantes, um menino que podia ser meu irmão mais novo, e que se escondeu dentro de casa.”

Diana conta que, depois das 17h, quando volta do trabalho, já não sai mais e fica com a avó octagenária no piso superior da casa, apenas esperando que a manifestação do dia acabe.

“Um dia olhei pela janela e havia vários garotos acotovelados no jardim, a guarda veio e levou todos a pauladas.”

Odontóloga e solteira, órfã de pai e mãe, Diana diz que não sabe mais o que fazer. “Ficou impossível viver em Caracas. Para chegar à clínica onde trabalho, cada dia tenho que usar um caminho diferente por causa das barricadas. Quero ir embora do país, mas não sei o que fazer com a minha avó, que mesmo com essa situação, não quer deixar o lugar em que viveu a vida inteira.”

Na calçada em frente da casa de Diana, no dia em que falou com a Folha, havia manchas de sangue no chão do enfrentamento do dia anterior. “Todos me perguntam como posso continuar vivendo no olho do furacão, mas a verdade é que você começa a se acostumar, vê isso (o sangue) e já não se impressiona.” De todo modo, Diana quer ir embora e juntar-se à irmã, que vive na Espanha. “Que tipo de vida vou ter aqui? Quantos anos até que o país volte a ter alguma normalidade?”, pergunta ela sobre o futuro.

E, num questionamento acerca do presente, diz não ter “nada para fazer nos fins de semana, todos os meus amigos já foram para outros países, e eu me aborreço, não tenho com quem sair e, mesmo que tivesse, não há lugar para se divertir, muito menos clima para isso”.

DEGRADAÇÃO

A degradação de Caracas é visível mesmo para quem visita a capital venezuelana com alguma frequência.

Verdade que a região central, governada pelo chavismo, apresenta uma aparência de normalidade. Os belos edifícios históricos da Caracas do século 19 foram restaurados e há mais gente caminhando nas ruas e comércios abertos -ainda que a maioria dos mercados tenha filas grandes para comprar comida, ou nenhuma fila, quando o estoque de fato acaba.

Ali, porém, não são comuns protestos nem repressão.

Já no lado leste da cidade, nos bairros de classe média e alta, o cenário é desalentador. Durante a manhã, ruas semidesertas. O dia avança e mesmo assim se veem poucos carros. Há muitas motos transitando -de manifestantes, coletivos (grupo paramilitar), e moradores que querem evitar as barricadas.

O serviço de táxi regular praticamente desapareceu. Pode-se chamar um serviço mais caro, nos hotéis ou por telefone. “Quem tem táxi comum não se arrisca mais porque as barricadas deixam estilhaços de vidro que podem rasgar as rodas. E comprar um pneu novo aqui é mais difícil que comprar um pulmão. É caro, tem de ser no mercado negro”, conta Jaime Moncada, motorista de um dos hotéis de Chuao.

Já os mototáxis se popularizaram, e muitos usam walkie-talkies para orientar os colegas sobre onde há barricadas mais difíceis de desviar ou onde começaram a reprimir naquele horário.

Nessa região, os restaurantes apresentam um menu limitado. É comum que o garçom entregue o cardápio já avisando que faltam três ou quatro pratos. E tal e tal bebida. Também ficam vazios de noite, devido à insegurança.

Ronaldo Schemidt/AFP
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Venezuelanos caminham ao lado de barricadas de lixo em Caracas

O visitante desavisado, mesmo que chegue trazendo dólares suficientes para sua estadia, pode passar fome.

Escasseiam cada vez mais os “trueques”, ou lugares onde se possa trocar dinheiro de modo clandestino. E a diferença entre o câmbio oficial e o “black” é imensa. Num, o dólar vale 2.810 bolívares, no segundo, chega a 15 mil. Isso torna o uso de cartões de crédito internacionais, que convertem o valor do bem consumido pelo bolívar oficial, proibitivo.

E, como os valores das notas não acompanham a inflação, é comum que a pessoa que, com sorte, consiga comprar bolívares, saia pela rua com uma sacola cheia delas. As lojas e os restaurantes, por sua vez, se adaptaram a essa nova realidade e quase todas têm uma máquina contadora para facilitar de pequenas a grandes aquisições.

No primeiro dia, ao chegar a Caracas, a reportagem da Folha gastou dois blocos gigantes de notas amarradas por elásticos para comprar um sanduíche de queijo, um refrigerante e um chocolate. Valor real do lanche: US$ 1,50.

O Pipoco

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