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‘Chávez está menos presente no governo’, diz biógrafo de ex-presidente

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UENOS AIRES — A Venezuela é governada por uma corporação corrupta e mafiosa, que utiliza sistematicamente a violência contra a população e na qual os militares ocupam um papel central. Fazendo um rápido resumo, esse é o pensamento do escritor venezuelano Alberto Barrera Tyska sobre seu país e a crise política que o assola. Em entrevista ao GLOBO, o escritor, que vive atualmente no México, assegurou que a presença de Hugo Chávez na retórica chavista é cada vez menor, talvez pelas contradições que o presidente Nicolás Maduro representa para a autoproclamada revolução bolivariana. “No levante de 1992, uma das bandeiras de Chávez foi denunciar a utilização das Forças Armadas para reprimir a população, que é exatamente o que Maduro faz”, disse Barrera Tyska, autor, junto com Cristina Marcano, de “Hugo Chávez sem uniforme”, uma das biografias mais lidas do ex-presidente. Para ele, que também escreveu dezenas de contos, novelas e roteiros de TV, o único destino de Maduro “é ser cada vez menos democrático”.

O nome e a figura de Chávez estão cada vez menos presentes na revolução bolivariana…

Sim, pensei que o culto à personalidade de Chávez duraria mais tempo. O Estado investiu muito nesse culto, mas há algum tempo sinto que Chávez está menos presente no discurso e na retórica do governo. Não sei se existe uma intenção de poupá-lo desta crise, para que não seja associado à repressão. Porque a repressão representa um problema delicado para este governo. Chávez comandou um levante militar em 1992 e uma de suas bandeiras foi que o governo daquele momento tinha usado o Exército para reprimir o povo, no chamado Caracaço. E agora Maduro está fazendo a mesma coisa ou até pior, sendo legitimado pelo ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López.

Chávez não estaria de acordo com o que Maduro está fazendo?

Não sei, ninguém sabe. Chávez tinha um projeto militarista e uma vez ordenou reprimir uma manifestação com gás lacrimogêneo. Mas, em teoria, sempre foi contra a repressão militar ao povo. Tudo o que estamos vendo contradiz o que Chávez pensava. O problema desta corporação que domina o país é que cada vez a vemos com menos maquiagem.

Por que o senhor fala em corporação?

Porque este governo está dividido em vários setores, unidos pelos negócios. Não existe mais uma definição ideológica e, sim, administrativa. Estão repartindo cotas de poder, de negócios e de dinheiro. Os militares são parte disso, e isso é uma corporação, que há 20 anos está no poder e está ramificada em vários setores, empresas, exportações, setor financeiro… uma corporação corrupta e mafiosa.

Os militares têm um papel central?

A realidade militar é a variável que define o futuro da Venezuela. Eles têm muito poder. Maduro deu aos militares a política e a economia do país. Os militares exploram o petróleo, os minérios. Um dos grandes desafios da Venezuela é que os militares retornem aos quartéis.

O senhor vê um governo sem discurso, sem argumentos para sustentar-se?

O governo tem um discurso, mas é tudo mentira. Maduro disse recentemente que seu governo fez um milagre financeiro e econômico, na mesma semana em que foi denunciada a morte de quatro crianças por desnutrição. É insólito, mas essa capacidade de mentir, negar a realidade se parece com a de uma seita religiosa fanática, que não vê a realidade e repete uma série de frases sem sentido.

A oposição parece desnorteada…

O governo apostou no desgaste, como aconteceu na greve de 2002/2003. O governo não se importou com a repressão e o número de mortos e agora culpa a oposição por tudo. Os dirigentes opositores têm dificuldades para manter a união e, como disse Freddy Guevara (vice-presidente da Assembleia Nacional), subestimam a loucura do governo. Mas é difícil brigar, sendo democrático, com um governo autoritário e violento. A oposição não pode combater no território da violência, seria suicida. E no território democrático deve lidar com fraudes. Como enfrentar um governo assim? A oposição fez um esforço e continua fazendo um esforço titânico, mas a vocação totalitária do chavismo é avassaladora. O que, sim, vejo é um grande avanço na comunidade internacional, que finalmente entendeu como funciona o chavismo. Foi muito difícil desativar a matriz de opinião internacional sobre esta revolução, mostrar que não são de esquerda, que não se preocupam com os pobres… Agora a pressão internacional é um dos fatores mais importantes.

Como imagina os próximos meses?

Acho que a oposição vai querer participar das eleições regionais, mas será difícil que o governo o permita, porque ele quer impedir qualquer derrota. A Comissão da Verdade, instalada no âmbito da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), será um tribunal terrível e vai decidir quem pode ou não ser candidato. Tudo isso começou em 2015, quando a oposição ganhou as Legislativas. Naquele momento, o chavismo decidiu que não teríamos mais eleições transparentes, universais, como estamos acostumados. É um golpe que começou dentro do Estado.

A ANC foi apresentada como a solução para todos os problemas do país…

Desde que foi instalada se dedicou a reprimir, perseguir, não fez nada sobre a situação econômica. Nisso são óbvios, evidentes. A Constituinte foi criada para legitimar a ditadura. Por isso a pressão internacional é tão importante.

Como o senhor vê Maduro hoje?

Maduro se fortaleceu com a Constituinte, não podemos subestimá-lo. Ele representa outros poderes, os militares, e se eles pretendem continuar no poder devem assumir que são uma ditadura. O que mais os enfraquece é não ter mais discurso, ter deixado de simbolizar uma revolução. Pelo contrário, representam corrupção, obscurantismo, estamos numa transição em direção ao totalitarismo. Maduro resistiu a tudo e agora está na contraofensiva. Não sei muito bem aonde chegará, seu único destino é cada vez ser menos democrático.

Que impacto podem ter as denúncias da ex-procuradora geral Luisa Ortega Díaz?

Dependerá das provas que apresentar. Sua ação tem um impacto enorme na imagem do governo no exterior. A herança simbólica de Chávez foi detonada e hoje a revolução bolivariana é um coquetel de corrupção, autoritarismo e narcotráfico.

O governo Maduro comete delitos de lesa-Humanidade?

Não sou advogado, mas com certeza Maduro exerceu a violência de forma sistemática contra a população. Não falo somente da repressão nos protestos, que já deixou 120 mortos, ou da existência de 645 presos políticos. Penso, também, na Operação de Liberação do Povo (OLP), um procedimento policial e militar que permite ao governo entrar nos bairros populares para prender supostos delinquentes. Entre 2015 e 2017, estas operações mataram 500 civis.

O senhor acha que a Venezuela é uma nova Cuba?

O governo está tentando levar o país a um sistema totalitário, mas o país está resistindo. Em Cuba não existe esta oposição, é uma sociedade mais disciplinada. Na Venezuela, estamos vendo uma briga épica entre cidadãos e o militarismo. O chavismo nos devolveu a antiga batalha entre civilização e barbárie.

O Pipoco

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