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Híbridos da mudança climática

1490947238_717701_1491044880_noticia_normal_recorte1-1-300x215 Híbridos da mudança climática

O que os sapos da fotografia estão fazendo não é comum. A fêmea (por baixo) e o macho pertencem a duas espécies diferentes e seria preciso viajar milhões de anos no tempo para encontrar um ancestral comum. Mas a mudança climática voltou a juntá-los e tiveram híbridos. E não são os únicos. Um número crescente de espécies de plantas e animais mais ou menos separadas geneticamente agora se reproduzem. Os resultados dessa hibridação provocada pelos humanos são incertos. No caso desse casal de anfíbios, os girinos nasceram com malformações e nenhum chegou a completar a metamorfose.

A fotografia desse particular abraço reprodutor próprio dos anfíbios e conhecido como amplexo foi tirada em maio de 2014 no parque regional de Partenio, uma área protegida da Campania, uma região do sul da Itália. A fêmea é um exemplar de sapo europeu (Bufo bufo), uma espécie presente em quase todas as latitudes da Europa. O macho, menor, é um sapo balear (Bufotes balearicus) que atualmente só pode ser encontrado na metade sul da Itália, suas ilhas, Córsega e as Baleares.

Os biólogos que presenciaram a cena coletaram várias fileiras de ovos após serem fecundados pelo macho. Como controle, também coletaram outras duas fileiras de outros sapos. Já no laboratório, estudaram a evolução dos ovos e esperaram sua eclosão. Das três fileiras, somente no caso dos híbridos os cientistas viram que a maioria apresentava um desenvolvimento e morfologia anormais. Uma análise genética confirmou que eram crias do sapo europeu e do balear.

A hibridação é relativamente comum nas plantas e entre as espécies animais de recente divergência”, diz o professor de Ecologia da Universidade da Tuscia (Viterbo, Itália) e principal autor da pesquisa, Daniele Canestrelli. Mas essas duas espécies de sapo estão separadas por 30 milhões de anos de evolução. “É quase a divergência temporal que existe entre nossa própria espécie e os mandris em números de anos, e com os lêmures em relação a gerações. Casos de hibridação entre espécies separadas há tanto tempo são extremamente raros na natureza e nunca foram explicados e atribuídos ao azar. Nosso trabalho é o primeiro que liga os pontos, oferecendo provas de um mecanismo causal: o impacto da mudança climática no ciclo vital das espécies envolvidas no hibridismo”, afirma.

Apesar de o sapo balear e o europeu compartilharem espaço e tempo, os primeiros preferem territórios mais baixos do que os segundos. Além disso, seus ciclos vitais, habitats e períodos de acasalamento não batiam até então. Mas o aquecimento global alterou a vida desses anfíbios. Mais exatamente, o sapo europeu atrasou seu período reprodutivo até bater com o do sapo balear. E este há uma década tem subido cada vez mais, até chegar às áreas do sapo europeu.

Essa subida das montanhas de muitas espécies é uma das consequências mais evidentes da mudança climática. No vulcão Chimborazo (Equador), plantas que só cresciam a uma determinada altitude há 200 anos, agora o fazem muito mais acima. Um fenômeno semelhante ocorre em Sierra Nevada, no sul da Espanha. Nos montes granadinos crescem 7% das 24.000 espécies de plantas vasculares de clima mediterrâneo.

A hibridação não é ruim por si só. De fato, é um dos processos mais comuns na evolução. Ocorre, por exemplo, em 40% das espécies de plantas. Além de comum, tem suas vantagens. Uma é que favorece a diversidade genética e a transmissão de adaptações vantajosas de uma espécie a outra. É o que aconteceu ao rato comum europeu na última parte do século passado. Perseguido pela varfarina, um fármaco anticoagulante muito eficaz como raticida, sobreviveu graças aos genes emprestados por um parente próximo, o rato argelino (Mus spretus). Os híbridos de ambos são resistentes à varfarina.

O rato comum europeu sobreviveu ao raticida varfarina graças aos genes do rato argelino que seus híbridos possuíam

Mas à medida que duas espécies que no passado foram uma se separam, a natureza levanta barreiras ao seu reencontro. Podem ser geográficas, como mares, rios e montanhas. Também ecológicas, quando dois animais dividem espaço, mas têm ciclos vitais, nichos e presas diferentes. Ao final, o tempo constrói a barreira mais definitiva, a genética. É a que, como no caso dos sapos, dificulta a sobrevivência dos híbridos.

“A má fama da hibridação existe fora da comunidade científica, não dentro”, comenta José María Gómez, pesquisador da Estação Experimental de Zonas Áridas (EEZA-CSIC) que, com o professor Lorite, pesquisou seu impacto na Sierra Nevada. “Tendemos a pensar que as espécies são categorias estanques e qualquer fenômeno que perturbe isso nos parece negativo. Mas a hibridação é um processo evolutivo muito importante”, diz. Ainda que pense na hibridação natural, sua avaliação sobre a causada pelos humanos não é muito diferente. “O processo biológico é o mesmo. Poderia nos parecer negativa por ser provocada pelos humanos, mas isso já é um juízo de valor”, conclui.

O biólogo marino Brendan Kelly, um dos que confirmaram a existência de híbridos entre ursos polares e pardos e o intercâmbio de genes entre as espécies pelo desgelo ártico, acredita que é tudo questão de graduação: “A integridade das espécies pode ser mantida com baixos níveis de fluxo genético, enquanto um fluxo elevado, natural ou provocado pelos humanos, pode levar à perda de espécies”. Mas, como ele mesmo reconhece, “as rápidas mudanças ambientais causadas pelo aquecimento antropogênico ameaçam causar altos níveis de intercâmbio genético”.

O Pipoco

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