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Obsessivo e polêmico na Argentina, técnico tenta salvar Copa de Messi

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Com casas coladas umas nas outras, a rua Remedios de Escalada é quase toda residencial. Uma exceção é o comércio onde Maria Luisa Sampaoli lê o jornal sobre o balcão. Ela trabalha numa lavanderia em Casilda, cidade de 35 mil habitantes ao sul da província de Santa Fé, na Argentina.

“Se meu irmão souber que falei com a imprensa, não vai gostar”, afirma, surpresa ao ser procurada para entrevista.

O irmão é Jorge Sampaoli, 57, técnico da seleção argentina. Ele faz o primeiro jogo de eliminatórias no comando da equipe nesta quinta (31), às 20h, em Montevidéu, contra o Uruguai. Em quinto lugar, está em situação difícil na busca por uma vaga para a Copa do Mundo de 2018. Apenas os quatro primeiros se classificam sem necessidade de repescagem.

Casilda é a terra natal de Sampaoli, município de onde saíram as primeiras sacas de trigo exportadas pela Argentina. Foram 4.500 toneladas despachadas pelo porto de Rosário. O segundo produto de exportação de Casilda foi o treinador que fez fama no futebol do Chile e da Espanha.

Roberto Candia – 30.nov.2011/Associated Press
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Sampaoli comanda a Universidad de Chile durante jogo contra o Vasco pelas Sul-americana de 2011

“Ele não queria sair daqui de jeito nenhum. Tivemos quase que expulsá-lo da cidade para que fosse atrás do sonho de ser técnico”, se recorda Maria Luisa.

Em Casilda estão quase todos os amigos de Sampaoli. Quando o desejo de ser jogador acabou no Newell’s Old Boys, de Rosário, por causa de uma lesão na tíbia, aos 19 anos, voltou para casa.

Trabalhou em uma agência do Banco Província no centro. Conciliava a função com o modesto início como treinador em equipes semiprofissionais ou das divisões inferiores.

O primeiro convite aconteceu aos 32 anos, em 1992, quando Sergio Abdala, El Turco, o chamou para comandar o elenco sub-20 do Alumni de Casilda, que disputa a Liga Casildense, torneio regional filiado à AFA (Associação do Futebol Argentino).

Era apenas o Alumini de Casilda, mas para Sampaoli era como se fosse o River Plate, seu clube do coração.

O técnico chamou a atenção por alterar métodos dos treinos, impor maior disciplina tática e colocar no banco alguns dos jogadores mais importantes do time, pois eles não se adaptavam ou resistiam ao estilo que o treinador queria impor. Os bons resultados fizeram com que ele fosse promovido dois anos depois para a equipe principal.

“Em Casilda ele já era essa pessoa que vocês se acostumaram a ver pela televisão. Séria e obsessiva”, diz Mario Giro, amigo de infância.

Jorge Guerrero – 14.ago.2016/AFP
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Jorge Sampaoli durante sua passagem pelo Sevilla (ESP), em 2016

Foi por essa obsessão que protagonizou na cidade a história que ajudaria sua carreira. Ao ser expulso em partida como técnico do Belgrano de Arequito, outro time da Liga Casildense, não se conformou. Saiu do campo, subiu em uma árvore fora do estádio e continuou berrando instruções para seus jogadores. A foto, publicada em jornais nacionais, fez o público pela primeira vez ver a imagem de Sampaoli.

Os amigos de Casilda ainda se recordam da sua indecisão para aceitar o cargo no Juan Aurich (PER), em 2002. Tinha tanta certeza de que não duraria tanto tempo no futebol peruano que viajou com uma mala pequena contendo apenas algumas peças de roupas e objetos de uso pessoal. Pelos 15 anos seguintes, não voltaria a trabalhar na Argentina.

O mesmo Sampaoli de Casilda foi o que, na preparação para a Copa do Mundo de 2014, quando comandava o Chile, mandou erguer uma cerca no centro de treinamento da seleção, na capital Santiago, para impedir qualquer um de ver as maquinações táticas que preparava no torneio.

As donas de casa dos prédios vizinhos reclamaram. O muro impedia o sol de bater nas roupas penduradas nas janelas e estas não secavam. O treinador respondeu que era dever patriótico se sacrificar pela seleção. Em seguida, proibiu os atletas de fazerem sexo durante o Mundial.

“ESTRANGEIRO”

O próprio Jorge reconhece que ficar longe da família e amigos o tornou um ser antissocial, rabugento e ainda mais obsessivo pelo futebol.

Os amigos da terra natal não o enxergam nessa descrição. Na cidade, ele ainda é apenas “El Zurdo” (o canhoto). Talvez a piada mais famosa e surrada da história de Casilda foi protagonizada por Sampaoli, quando disse para outro amigo de infância, Jorge Beltrán: “Um dia vou ser técnico da seleção.”

O amigo, que também trabalhava no banco, nem parou de contar dinheiro para responder: “E eu vou ser presidente da República.”

Embora tenha conquistado a Copa América de 2015 com a seleção chilena, derrotando a Argentina na final, Sampaoli não foi escolha unânime no país para ser técnico do time nacional. É vítima da disputa entre menottistas e bilardistas, que domina as discussões de estilos no futebol local.

Menottistas são os que acreditam no estilo vertical e ofensivo de Cesar Luis Menotti, campeão mundial em 1978. Bilardistas são os defensores de Carlos Bilardo, um técnico “de resultados” pouco importando a forma, vencedor da Copa do Mundo de 1986.

“Se a seleção precisa de Sampaoli, precisamos fechar a escola de técnicos na Argentina e começar de novo”, atacou Bilardo.

Sampaoli foi acusado por Maradona de ser “soberbo”.

Ter impedido a Argentina de ser campeã da Copa América também é motivo para mais críticas. A seleção principal não ganha nada desde o torneio continental 1993.

Sebastián Silva – 29.jun.2014/Efe
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Sampaoli é recebido pela presidente chilena Michelle Bachelet após bom desempenho na Copa de 2014

Ele já poderia ter assumido o cargo no ano passado, quando Gerardo Martino, outro de seus desafetos, decidiu sair.

Sampaoli sabia ser o favorito dos dirigentes, mas tinha oferta do Sevilla (ESP). Esperou por quase um mês a renúncia de Martino que, não querendo ver o ex-treinador do Chile em seu lugar, se segurou no cargo. Sem poder aguardar mais, aceitou a proposta do clube espanhol.

Menos de uma semana depois, o técnico da seleção argentina se demitiu. Edgardo Bauza foi contratado.

“Jorge Sampaoli tem muito o que aprender ainda”, disse Martino em fevereiro.

O Pipoco

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