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Sumé Por Efigênio Moura

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Beguinha nasceu e se criou, mas não fez vida em Santa Luzia do Cariri. Andemberg Sotero de Lima, de batismo era alucinado por Sumé.

Quis o destino que Beguinha- a
dorava esse apelido, fosse morar com sua mãe na última casa de Santa Luzia (a direita de quem vai para Sumé), a cerca de 20 metros da divisa entre Serra Branca com Sumé.

A herança de seu avô que seus outros 16 tios rechaçaram, era uma casa pequena mas cabia os dois e tinha um diferença: era mais perto de Sumé, do que por exemplo, a casa perto da Igrejinha de cruz vermelha quando anoitecia.

Casa de taipa, frente larga, portas de baixo e de cima a esquerda e a direita, janela que dividia a paisagem caririzeira com um cano de ferro em vertical onde se instalava a caixa que mostrava o marcador de energia, abaixo da janela, um pouquinho a sua esquerda ( de quem está de dentro) uma caixa de cimento quadrada que Beguinha nem sabia e nem tinha curiosidade em saber para que servia, perto da porta de entrada e do lado de fora, uma cadeira de ferro faltando as almofadas, que Beguinha sentava nas noites quentes espiando para o lado de São Tomé.

Era esse o único problema da casa. Não estar em Sumé.

Nem a falta de sanitário, nem as frestas do barro miúdo faltando nas paredes do quarto, nem o chão batido e pegajoso eram empecilhos para sua moradia, muito menos sua falta de vontade de trabalhar!

O fato da casa não estar em solo sumeense o incomodava tanto que certa noite, uma daquelas de frio cortante, ele teve a ideia de arrancar a placa que divide os dois municípios (Sumé e Serra Branca) e recoloca-la 5 metros antes de sua casa.

A tentativa de morar em Sumé fora frustrada quando o procurador de Serra Branca descobriu e mandou imediatamente devolver a placa ao seu lugar de origem.
Beguinha decidiu compartilhar seu sonho de morar em Sumé:

– Mãe, quero lhe falar dum gosto cô tem..

– Meu fio se for de mel de engenho com fuba, ta rin viu?

– É nada mãe, é gosto que num se pega.

– Danousse!!!

– É um gosto dum lugar que mais parece o céu, mãe.

– O céu é onde se sente bem meu fio.

– Sumé mãe.

– De Sumé pro Céu é um tiquin longe Beguinha.

– Mãe a senhora num sabe o quié sentir alegria não?

Não deu tempo a mãe responder, Beguinha levantou-se e abriu a janela, deixando a escuridão do Cariri invadir a sala crua.

– O caba dobra aquela cuiva e quano quebra o braço pro mermo lado da cuiva ve aquela casa que mais parece um apartamento, um kitinete de barro e pau , sem jinela, mar cum um chiqueiro de vara grudado, o caba fica maginando quem é o casá feliz que mora ali. O caba como eu e que sou eu, fico parado, maginando o que de vida véve ali, naquela caixa abafada, inbaixo daquelas têia baixinha, correno in redor do chiqueiro, fechano a porta e desceno a ladeira pra adispois de outra cuiva,…

Beguinha encheu os olhos dágua…

– … vê a propagana do paraiso, numa praca grande, arta e verde, com as quato letra branquinha quié bem dizer um prato de buchada cum sarapatel num domingo debaixo dum juazeiro lambeno 2 lito de Matuta: Sumé!

Ele narrava e fazia com os dedos o quadrado da placa anunciando a cidade, ele falava e os olhos alumiavam a estrada e eram por esses faróis que a mãe também enxergava, não a cidade, mas a oportunidade de trabalho e comida todo dia para que ele Beguinha, enfim cuidasse da própria vida e ajudasse a mãe a economizar sua aposentadoria. Sabia que lhe faltava coragem e lhe sobravam dúvidas.

– Descambá naquela rua de dois lado, Cuma se fosse uma bicicreta sem frei, arreparano os poste tudin in filêra cum braços bem amarrados in riba deles, vê e os carros e os povos saino das ruas dos lados, inté chegar no Bar do Vaqueiro e lá se assentar e esperar os povo alegre que chega e as tristeza de quem sai de Sumé…

– Isso pra quem vai pra Monteiro ou Congo né Beguinha?

– É mãe.

– Beguinha, tu nem carece ir simbora daqui pra fazer teus gosto.

– Num seio mãe.

– Tu vai todo dia e vorta todo dia, né longe não, aproveita e traz o pão quano vortar.

– Mas mãe se eu for pra lá todo dia, lá vai ser igual a Santa Luzia…

– Cuma?

– Do mermo jeito. Cás mesmas coisas. O bom mermo é as surpresas. O bom mermo é tumar shusto cás coisas que num se vê todo dia…Se eu fô todo dia, tudo vai ser do mesmo jeito.

– Meu fio ta indoidano é?

– Mas mãe, sentir saudade é rin é?

– Vou é coidar de botar o mosquiteiro logo e banhá os pé, e quano for drumir Beguinha, leve o urinol…

– O que mãe?

– O pinico. Num esqueça não.

Beguinha continuou na janela, sonhando acordado olhando para as luzes das torres , para o Cruzeiro em Sumé e se imaginando andando alegremente pelo centro da cidade, comprando a vista um utensilio novo e desamarelado, no comercio Sumé…
Suspirou!

O Pipoco

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