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BOTECO DE FEIRA: BEBÉ DE DURVAL Por Nal Nunes

nal-nunes-357x380 BOTECO DE FEIRA: BEBÉ DE DURVAL Por Nal Nunes

Por Nal Nunes

Na década de trinta reinou absoluto o homem mais temido do Sertão Nordestino, o sanguinário Lampião. Indiscutivelmente foi o cangaceiro mais afamado de toda a história das caatingas brasileiras. Porém, em Monteiro, no Cariri Paraibano, havia um homem que não era cangaceiro, mas foi o homem mais valente dessa região. O nome da fera era Bebé de Durval. Não havia na Paraíba quem não tivesse medo até de falar no nome de Bebé de Durval. Confesso que tem gente, ainda hoje, que somente em ver o retrato dele desmaia de tanto medo. Eu pelo menos, ao escrever essa estória estou com muita dificuldade para digitar devido a tremedeira.

Esse fato é verídico e ocorreu na cidade de Monteiro.

Era muito comum aos músicos daqui de Monteiro, ao iniciar sua carreira, pegar seu violão e sair de bar em bar, mostrando suas qualidades na arte recém aprendida. Com Berim de Adalberto não foi diferente. Ele tratou logo de comprar m violão novo e saiu exibindo seus dotes, por sinal inerente a toda família, todos tocam.
Certo dia, Berim de Adalberto estava com uma corriola de bebado tocando num boteco de Monteiro, cujo ambiente havia apenas outra mesa ocupada por dois homens. Um deles era Geu de Agape. Um magricela feioso lá da Rua dos Pereiros, era tão magro que qualquer sopro derrubava o coitado. Geu era metido a cantor e foi logo se dirigindo a Berim de Adalberto:

– Ô Berim, toca aí prá mim cantar uma música de Bartô Galeno?
-Oxe! Tu tais ficando doido é Géu. Tu acha que um músico da minha qualidade vai tocar uma merda dessa? Esses bregas véi é prá músico ruim, músico safado. Toco nada…não tem quem faça…!
Naquela ocasião, o outro que estava ao lado de Géu de Agape, era justamente o famoso Bebé de Durval, em carne e osso. Bebé era tão valente que na região de Monteiro havia quem apostasse para saber quem era mais temido, Bebé ou Lampião.
Bebé se levantou, já com o cabo do revólver à mostra e se dirigiu a Berim:
-Ô cabrinha, quer dizer que você não toca brega? Você parece que num tá me conhecendo não…eu sou Bebé de Durval!
-Toco sim senhor…é a música que mais eu gosto!
-Bebé continua: então toca logo aí, e bem tocado, sem cara feia, a música que mais eu gosto: FUSCÃO PRETO.
-Você bebe cabrinha?

Berim tremendo que língua de cobra respondeu gaguejando: Bebo não senhor…!
-Pois beba logo esse copo de cana para começar e toque minha música.
Berim de Adalberto imediatamente atendeu o pedido e caprichou na execução de Fuscão Preto. Ao terminar, todo sorridente, se dirigiu a Bebé de Durval e comentou:
-O senhor tá satisfeito, toquei sua música, agora eu posso ir embora?
-Você tá conversando merda seu cabrinha! toque aí Fuscão Preto até eu enjoar, toque 42 vezes sem parar e sem cara feia…

O pobre do Berim arrochou o pau a cantar a desgraça do Fuscão Preto, amarelo, trêmulo, mas se esforçando para exibir um sorriso falso, e sem tirar o olho do revólver de Bebé do Durval. Era meio dia quando começou o Fuscão Preto e lá pras tantas, já havia sido tocado 35 vezes, quando Berim já totalmente rouco, os dedos inchados e sangrando, perguntou humildemente:
-Seu Bebé, o senhor deixa eu parar? Eu já toquei muito…olhe aqui a situação dos meus dedos, o sangue tá pingando…!

-Eu devia lhe dar uns ensinos seu cabra! Porque você parou? mas eu vou perdoar dessa vez. Agora, só por conta disso, faltava tocar só 7 vezes, você toque agora 17 prá aprender a respeitar ordem de homem.
Já passava de 8 da noite e Berim terminou tão rouco que não pronunciava mais nenhuma palavra, porém tendo permissão de Bebé para se retirar, Berim deu uma carreira tão da mulesta em direção a sua casa que não quis saber nem de levar o violão.
Passaram-se alguns anos e Bebé de Durval foi assassinado. Berim continuou sua vida de músico e ainda hoje tá vivo para confirmar esta história. Depois que Bebé morreu, se alguém mandasse Berim cantar Fuscão Preto, arrumava um intrigado na hora.

Berim ainda hoje não canta mais Fuscão Preto prá seu ninguém. Aliás, ele hoje só canta música evangélica. Fuscão Preto nunca mais!

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