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Risco de novas variantes e de falta de insumos médicos: como a onda de Covid na China pode afetar o Brasil

china_covid-599x400 Risco de novas variantes e de falta de insumos médicos: como a onda de Covid na China pode afetar o Brasil

O mundo começa a ficar atento e preocupado diante do cenário de uma onda de Covid-19 na China. As exatas proporções do surto entre os cerca de 1,4 bilhão de chineses são desconhecidas, mas a explosão de casos já causa superlotação em hospitais e mortes.

A quantidade de infectados aumentou após o fim da política Covid zero, conjunto de restrições imposto pelo governo chinês desde 2020 para tentar eliminar a transmissão do vírus entre a numerosa população do país.

O que explica a explosão de casos? Segundo infectologistas ouvidos pelo g1:

  • Flexibilização das restrições, o que permite maior mobilidade e mais pontos de aglomeração;
  • Baixa cobertura vacinal das doses de reforço e entre os idosos.
  • Quais os principais efeitos que a explosão da Covid pode causar no mundo?
  • A situação pode trazer impacto sanitário e econômico em outros países, como no Brasil;
  • A principal preocupação é sobre o risco do surgimento de novas variantes mais transmissíveis e que escapem da proteção que as atuais vacinas dão para casos graves da doença;
  • Risco de falta dos mais diversos tipos de insumos (incluindo material hospitalar e medicamentos) produzidos pela China e exportados para todos os continentes.

Falta transparência: cenário incerto na China

De acordo com a agência de notícias RFI, quase um terço da população de Pequim está com suspeita de ter o coronavírus – isso significa que 22 milhões de pessoas podem estar infectadas. Além disso, há relatos de lotação em hospitais e sobrecarga em necrotérios e crematórios.

“Estamos acompanhando com muita, mas muita apreensão”, diz o médico Alexandre Naime Barbosa, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

“O que está acontecendo na China seria muito parecido com o que aconteceu no Brasil no pico da variante gama (início de 2021). Só que, na população chinesa, não se conta aos milhões, se conta aos bilhões”, afirma.

Nos dados disponíveis de forma pública pelo governo chinês, o cenário é outro – o motivo, segundo especialistas, é a falta de transparência. Na segunda-feira (19), foram confirmadas oficialmente as duas primeiras mortes por Covid desde o começo do dezembro, quando começaram as flexibilizações que estavam em vigor havia quase três anos.

De acordo com a Rede Análise Covid-19, com base no monitoramento do Our World In Data:

  • China chegou a registrar mais de 71,3 mil casos de Covid em 29 de novembro;
  • Dado mais recente disponível é de 13 de dezembro, com 7,1 mil casos no dia;
  • Duas mortes após o fim da Covid zero foram registradas em 3 de dezembro; desde então, não há dados disponíveis.

Milhões de mortes: previsões para a China

Cientistas projetam que a China tenha de 1 a 2 milhões de mortes por Covid por conta do fim das restrições e pela falta de atendimento à população.

  • Em maio, o cenário com a possibilidade de mais de 1,5 milhão de mortes foi divulgado em estudo na revista científica “Nature Medicine”; pesquisadores projetaram um aumento de 15 vezes na demanda por atendimento em UTI.
  • Para Zhou Jiatong, chefe do Centro de Controle de Doenças de Guangxi, que fica ao sul da China, a possibilidade é a de que 2 milhões de pessoas morram de Covid no país na nova onda.
  • Já um estudo da Universidade de Hong Kong prevê que a China registre cerca de 1 milhão de mortes depois do fim das restrições sanitárias.

O que explica a nova onda?

A flexibilização das medidas restritivas e a baixa cobertura vacinal de dose de reforço e entre os idosos são apontadas como fatores principais para a explosão da Covid na China.

  • A China tem uma alta cobertura vacinal na primeira e na segunda dose (91% e 89%), mas apenas 57% da população tomou doses de reforço – são elas que garantem a proteção completa, principalmente frente à variante ômicron e suas sublinhagens;
  • Entre idosos, cerca de metade das pessoas com 80 anos ou mais receberam as primeiras vacinas e menos de 60% da faixa etária entre 60 e 69 anos estão totalmente vacinadas;
  • Além disso, o governo chinês decidiu não usar as vacinas bivalentes, que são mais eficazes contra a ômicron e suas sublinhagens, predominantes hoje no mundo.

Estudos científicos já mostraram que os idosos chineses não gostam de vacinar, porque seguem a medicina tradicional chinesa, que não inclui vacina. Esse é um ponto muito importante. É outra cultura — Alexandre Naime Barbosa, infectologista

Há risco de novas variantes?

Infelizmente, sim. “Toda variante mais perigosa acontece quando a transmissão está descontrolada. Sempre que você tem uma taxa de transmissão altíssima, o vírus encontra o ambiente ideal para se reproduzir em alta escala”, coloca Barbosa.

“Existe um risco de seleção natural, de novas variantes que venham a surgir e com impacto no futuro relacionado a novas ondas”, afirma também o infectologista Julio Croda.

A mesma opinião tem a infectologista e professora da Unicamp Raquel Stucchi: “A grande preocupação é o surgimento de novas variantes, que venham desafiar as vacinas ou as medicações que temos hoje para impedir formas graves da doença”.

Com a alta taxa de transmissão da Covid na China e parte da sua população não vacinada, o receio dos especialistas é que possa aparecer uma “super ômicron”, ou seja, uma cepa muito mais transmissível do que com a que convivemos hoje. “Isso seria algo bem possível, um cenário bem provável”, diz Barbosa.

E os impactos no Brasil?

Existe a possibilidade de que o vírus que atualmente circula na China se espalhe, causando picos de transmissão em outros países. Mas, com uma população com a vacina em dia e sem novas mutações, a tendência é de que não haja aumento nas hospitalizações e mortes.

A curto prazo, o que mais preocupa – inclusive aqui no Brasil – é a possibilidade de falta de insumos médicos e farmacêuticos, usados para a fabricação de medicamentos, por exemplo – isso porque a China detém a produção global desse tipo de produto.

“É possível, devido ao caos que provavelmente está instalado no sistema de saúde chinês, que nós tenhamos um desabastecimento desses produtos básicos ou elevação de preço”, ressalta Alexandre Naime Barbosa.

“Podemos ter problemas como falta de seringas, luvas, respiradores, pois a maioria desses produtos vem da China”, coloca o infectologista Julio Croda.

G1

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